28.09.17
postado por Ana Luiza na categoria Bella Hadid
Bella Hadid concede entrevista a Haper’s Bazaar Arabia

É o final de junho de 2017, o dia do ensaio fotográfico de Bella Hadid para a Haper’s Bazaar Arabia. O Grande Canal de Veneza fornece um fundo etéreo para os vestidos couture de Elie Saab, Ralph & Russo e um terno de Schiaparelli com desenhos bordados de palmeiras. É também o dia em que a proibição de viagens ordenada pelo Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, começa a fazer efeito, fazendo com que turistas de 6 países predominantemente muçulmanos não possam entrar nos Estados Unidos por 90 dias e, de modo similar, proibindo também todos os refugiados de entrarem nos Estados Unidos por 120 dias.

 

“Meu pai era um refugiado”, Bella disse para a Bazaar quando o ensaio terminou, já sem o salto alto ela está segura em sua suíte no Gritti Palace de Veneza – uma costureira no canto silenciosamente arrumava o vestido de Alexandre Vauthier que a modelo de 20 anos planejava vestir em um evento de gala naquela noite. “Ele veio da Palestina para a América quando era um bebê”, ela explica sobre seu pai, o arquiteto Mohamed Hadid, conhecido graças a seus desenvolvimentos pródigos e multimilionários em Los Angeles. “Agradeço que ele teve a oportunidade de vir, mas foi muito difícil e provavelmente agora é 100 vezes mais. Me entristece que o poder esteja sendo retirado de várias pessoas e que eles não tenham mais a oportunidade de começar uma vida nova para seus filhos e familiares. É louco para mim como uma pessoa pode dizer se você pode ou não ter uma vida melhor,” ela balança a cabeça.

 

A visão de Bella sobre a política de imigração do Presidente Trump não é segredo. Em janeiro, ela e a irmã Gigi Hadid, 22, foram para as ruas de Nova Iorque para a manifestação “No Ban, No Wall”. A decisão delas de se juntarem a marcha foi feita em cima da hora, sem tempo algum para mobilizar qualquer segurança que normalmente acompanha as duas garotas. “Eu só queria lutar pelo o que eu acho que é certo e realmente não me importei se eu estava com 100.000 pessoas ao meu redor, porque com ou sem segurança, eu queria ir e lutar pelo que acredito,” Bella diz, encolhendo os ombros, “Ninguém nem estava olhando.”

 

Os outros manifestantes podem ter ficado desatentos sobre terem duas das mais famosas modelos do mundo junto a eles, mas a imprensa não. Ciente do poder de suas ações, Bella não tem medo de se expor se for para fazer com que a mídia a persiga por um bem maior. “Se eu não puder falar sobre algo que eu sou apaixonada, por que eu estaria lá? Por que eu faria cada coisa que faço se eu não tiver um propósito maior para o mundo, ou fazer a diferença, ou acender uma luz sobre uma situação que obviamente está tão escura? É tudo tão assustador,” ela diz.

 

“Quis cavalgar minha vida inteira” – uma ambição que foi colocada de lado por causa de seu diagnóstico de Doença de Lyme, que deixou tudo tão perigoso, mas ela recentemente renunciou – Bella sente a superficialidade aguda de modelar. “Não é muito sobre se doar, ser uma modelo, não aquece seu coração,” ela diz ironicamente, acrescentando, “Não é tão gratificante para a alma como a maioria das coisas.” Como alguém que a alma requere mais sustento do que 15 milhões de curtidas no Instagram pode oferecer, Bella – nascida Isabella Khair Hadid – está determinada a fazer um bom uso da plataforma que a profissão de modelo a concedeu. “Desde que eu era criança, eu amava ajudar as pessoas. Minha mãe sempre diz que eu ia para as ruas abraçar alguém que estava sentado num canto. Era simplesmente porque eu amava pessoas, e isso é algo que eu quero trazer adiante comigo em minha carreira. Se eu tiver a oportunidade de mudar algo no mundo para melhor, eu ficarei feliz.”

 

Durante uma época em que se pode acabar despertando a ira da internet dar voz a uma opinião sobre algo com mais conteúdo do que a mais nova técnica para aplicar iluminador, ela não tem medo de expor o que acredita, mesmo se isso significa receber críticas. “O que é tão lindo sobre a época em que vivemos agora, é que não é mais tudo sobre aparência. Você tem que ser mais que isso. Você tem que ter uma personalidade e poder ter uma conversa com alguém tendo algo pra dizer.”

 

Perto de completar 21 anos, Bella é uma intrigante mistura entre garota e mulher. Ela tira selfies se afastando inconscientemente enquanto um barco nos transporta do local do ensaio fotográfico da Bazaar para o hotel dela, traindo suas raízes digitais. Ainda mais cedo em seu penteado e maquiagem, ela evitou parecer uma típica millennial, ao invés disso, assistiu um vídeo em seu celular do ataque terrorista na London Bridge que aconteceu em junho, no qual deixou um policial ferido, a fazendo chorar. “Eu com certeza sou empática,” Bella reflete, “Eu sou muito emotiva, mas eu também sou muito forte. Eu me defendo, mas choro com tudo.”

 

Mal tendo saído da adolescência, a experiência de vida de Bella pode ser muito diferente das experiências dos outros, mas ela se simpatiza sobre as questões que pesam em sua enorme fã base. “É muito difícil,” ela diz sobre a adolescência atual. “Você vai ser julgado em qualquer coisa que faça. Se você for magra, tem um corpo ótimo e não tem bunda, as pessoas vão dizer ‘Por que você não tem bunda?’ e então você vai e consegue uma bunda falsa e eles vão ficar irritados porque sua bunda é falsa. E então você não tem seios, e é apenas um ciclo sem fim.” Tendo que lidar com julgamentos excessivos em torno de sua aparência, Bella aparenta evitar julgar, provavelmente uma maneira de se autopreservar. “Todos esses adolescentes precisam saber que você é você, e essa é a melhor coisa que pode ser. É muito triste porque não acontece só na América ou só na Europa, isso acontece no mundo todo. Bullying é uma coisa muito louca.”

 

Com sua carreira e perfil tendo explodido no ano passado, a modelo explica que encontrou consolo entrando em contato com seu lado espiritual. “Eu tenho uma família inteira de anjos,” ela revela um pouco tímida. “Eu acho que há várias pessoas espiritualizadas ao redor do mundo. Elas estão apenas circulando por aí e estão por perto quando você precisa. Eu consigo forças a partir disso, completamente. É definitivamente assim que consegui passar pelo ano passado e me manter sã.” Insanidade não é algo incomum no mundo da moda. Um ensaio fotográfico pode envolver um time de 30 pessoas. São 30 pessoas estranhas em volta dela todos os dias. “Eu sinto a energia de todos a minha volta, o que é bem difícil às vezes,” ela diz sendo o sustento da qual a moda gira em torno. “Sabe, é uma benção e uma maldição às vezes, porque eu apenas amo demais. Eu sou amorosa.”

 

Pode parecer ingênuo ver a vida de Bella como algo que não seja tão encantador, mas não há muitos jovens de 20 anos de idade que trabalham 7 dias por semana por meses a fio. “Todos tem visões diferentes sobre o que é trabalhar duro. No final do dia, se você estiver exausto, você trabalhou duro. Eu com certeza estou cansada na maior parte do tempo,” ela diz. Sem ser uma estranha a esse tipo de vida, Bella já trabalhou em uma lanchonete de sucos, em Santa Bárbara, quando tinha apenas 14 anos. “Nos fins de semana todos os meus amigos estavam na praia e eu estava trabalhando, servindo smoothies e sucos. Eu fazia uns 8 doláres por hora e ganhava gorjeta.” A família pode ter vivido num palácio esplendor em Montecito, Califórnia, mas, “Nunca achei certo pedir dinheiro para os meus pais,” Bella diz. “Eu nunca gasto dinheiro. Até hoje em dia ainda me enlouquece gastar dinheiro. Ficava mais feliz comprando uma blusa bonita de $5 do que uma peça feita por um designer. Eu nunca comprei nenhuma peça de um designer até completar 18 anos e poder comprar para mim mesma. Eu comprei o meu primeiro par de Louboutin e foi um grande momento para mim. As pessoas sempre acham que os meus pais compravam as coisas para a gente. Minha mãe nunca comprou nada para mim de um designer. Meu pai comprava para mim coisas pequenas com um significado muito maior do que uma bolsa de grife. Eu preferia ter botas para cavalgar. Era isso que me deixava muito feliz.”

 

Apesar de ter crescido cercada por riqueza, Bella está intimamente consciente da disciplina requerida para ter sucesso. “Eu sempre tive ética de trabalho por causa do meu pai. Ele teve que trabalhar para conseguir dinheiro para sua família. Eles começaram sem dinheiro algum, então ele construiu sua vida até onde ele está agora porque ele  costumava pensar sobre como gostaria que sua vida adulta fosse e jamais parou de sonhar com isso. Ele trabalhou pra caramba… Ele trabalhou muito mesmo,” ela se corrige, “para chegar onde ele está.” Sua mãe, a antiga modelo holandesa Yolanda Hadid, que separou de seu pai em 2000, foi similarmente prudente. “Ela se mudou sozinha para a América quando tinha 16 anos com apenas $20 em seu bolso,” Bella explica. “Ambos me ensinaram o que é dinheiro.” Até mesmo o segundo marido de Yolanda, o produtor musical David Foster, do qual ela se divorciou recentemente, também ajudou na educação sobre finanças de Gigi, Bella e seu irmão de 18 anos, Anwar. “Meu padrasto, David – que não é mais meu padrasto – também não teve muito dinheiro enquanto crescia e sempre nos ensinou muito sobre como gastar.”

 

Hoje, Bella fala com orgulho sobre atingir a independência financeira aos 18 anos. “E é por isso que eu continuo trabalhando duro, porque eu penso nos meus pais e o quão longe chegaram, como trabalharam para nos dar a vida que nos deram. Se eu só sentasse minha bunda, eu não acho que teria a oportunidade de viver por si só,” ela diz. “Eu acho que ética de trabalho não é só uma das coisas mais atraentes numa mulher, mas também é uma das coisas mais gratificantes ser uma mulher e ser completamente independente.” É algo que ela pretende passar para sua futura família. “Quando eu tiver filhos, com certeza quero que eles tenham a oportunidade de trabalhar duro, mas não é algo que seja muito ensinado. É algo que eu assistia e aprendi, e espero que eu tenha esse tipo de impacto nos meus filhos.”

 

Com o trabalho vem o sacrifício, e Bella admite que não consegue se lembrar da última vez em que não perdeu uma reunião de família ou festa de aniversário. “Eu sempre digo para a minha mãe, ‘Eu perco tudo. Tipo, eu realmente perco tudo’,” ela geme falsamente. Essas ausências são ainda maiores para a moradora de Nova Iorque, Bella, que possui um estilo de morena sensual adorado pela arena européia da alta costura, no qual ela tem contratos com Bulgari, Fendi e Dior Make Up, enquanto sua irmã loira Gigi, gera trabalhos bem americanos; trabalhando perto de casa com grandes marcas dos Estados Unidos, como Tommy Hilfiger e Maybelline. “Na maioria das vezes nosso mercado é completamente diferente,” Bella concorda, “e se nós duas nos candidatamos para um trabalho e uma consegue e a outra não, ficamos felizes uma pela outra. Não tem motivo para que a gente fique irritada uma com a outra ou que sejamos competitivas. Então se ela consegue [o trabalho], bom para ela. Nós somos uma família, então ela pode me comprar um par de sapatos,” ela ri.

 

Seu contrato como embaixadora de acessórios da joalheria romana Bulgari, e o rosto de sua fragrância Goldea, The Roman Night, faz com que Bella raramente seja vista sem estar com fabulosas jóias. Como ela se sente sobre grandes pedras? “Além dos seguranças que tem que me seguir por toda parte?” ela ri. “Até esse ano eu nunca usei jóias assim. É uma honra. E eu amo a Bulgari, então é perfeito.” Obviamente altas jóias trazem seus próprios obstáculos, como quando o fotógrafo da Bazaar, Victor Demarcheller, grita, “Sai daí, sai daí!” indicando para que o motorista do barco dirigisse para longe do quabra mar, fazendo com que Bella, por um momento, entrasse em pânico por causa do colar que estava usando – ‘The Green Liz’, avaliado em 13,6 milhões na moeda árabe com 59 quilates de esmeralda, uma reprodução do colar da Bulgari que Richard Burton deu para Elizabeth Taylor em seu aniversário de 40 anos – tenha caído do barco. Uma vez que se tem certeza que as pedras estão a salvo em torno de seu pescoço e não no fundo do Grande Canal, o ensaio fotográfico retoma; a única falha em um dia que quase parecia um conto de fadas. “Todo mundo no set foi incrível e é tão bom poder trabalhar com pessoas que você de fato aprecia trabalhar, porque à vezes é complicado,” Bella confidencia. “Tipo, estamos fotografando em Veneza, vai! É um dos lugares mais lindos. Couture, diamantes, Veneza e Victor. Estou bem!”

 

Enquanto Bella admite que sua agenda de viagens é intensa, ela concorda que é impossível não se deixar seduzir por um destino como as ilhas do Mar Adriático. Uma viagem recente para os Golfos teve um impacto espiritual parecido. “Quando eu fui ver a mesquita de Abu Dabhi foi o melhor dia da minha vida,” Bella lembra da visita a Mesquita de Sheikh Zayed Grand em abril. “Eu conversei com todos aqueles árabes homens e mulheres e finalmente entendi a cultura muito mais do que já havia entendido antes.” Bella explica sobre crescer com a aderência de seu pai ao Islam: “Ele nos ensinava sobre isso e praticávamos o Eid [Festa do Sacrifício] com minha família e também praticávamos o Ramadan – sempre fiz isso desde criança. Quando cresci comecei a trabalhar e ir para a escola, então não podia participar tanto. Meu pai é apaixonado por isso, o que me mantêm também apaixonada pelas minhas raízes.” Nos Emirados Árabes, ela particularmente amou conhecer uma mulher com uma herança Palestina parecida. “Elas são todas como minhas irmãs. Nós nos entendemos de imediato. Tem-se uma ligação, eu acho,” ela diz, entusiasmada com as socialistas de Dubai. “E todas elas são tão lindas; maquiagem incrível, um estilo demais. É como Los Angeles, mas 10 vezes mais elegante e intenso.”

 

Bella – frequentemente percebida como a irmã Hadid mais enigmática – vem em um contraste mais nítido quando você a coloca dentro do contexto de uma extensa família árabe. Seu trabalho, sua ética, seu grande foco em independência, sua família unida, seu estilo tão abraçado e celebrado; tudo tecido ao longo da diáspora árabe. “Eu amo mulheres árabes. Elas são tão fortes e incríveis. Era assim que minha avó era e todas as minhas tias de parte de pai,” ela diz. “Todas elas são mulheres fortes e eu acho isso tão lindo sobre a mulher árabe.”

 

Família a parte, é a escolha da maior modelo a se seguir de Bella que revela seus maiores valores numa mulher. “Eu conheci a Michelle Obama recentemente,” ela sorri, “ela é uma das mulheres mais fortes de sempre e tão inspiradora, educada e linda. Uma boa esposa, uma boa mulher, uma boa pessoa. Eu acho que ela é o significado de uma mulher incrível.” Assim como a antiga Primeira Dama, Bella opta por uma forte essência em seu estilo. É apto então dizer que seu sobrenome significa “ferro” em árabe. Bella, seu apelido, muito forte e determinada por natureza.

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